Agência rebaixa Brasil e país deixa de ser bom pagador

Standard & Poor’s (S&P) cortou a nota de crédito do país, de “BBB-” para “BB+”, Brasil perde selo de bom pagador.

Notas dadas pelas agências de investimento representam o grau de confiabilidade que um país pode ter na relação com os investidores.

Algumas relações comerciais estão condicionadas às notas do grau de investimento conferidas pelas agências.

Medida inviabiliza a atração de novos investimentos e pode provocar fuga de investidores do Brasil e dólar pode subir ainda mais.

Fonte: O Globo

Abaixo do volume morto: agência rebaixa Brasil e país deixa de ser bom pagador

Cenário econômico levou a entidade a colocar o rating do Brasil em perspectiva negativa, o que aponta a possibilidade de novo rebaixamento nos próximos meses. Divulgação

S&P corta nota de crédito do Brasil e país perde grau de investimento

Agência cita proposta orçamentária como motivo para rebaixamento

Menos de dois meses após revisar a perspectiva do Brasil para negativa, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P) cortou a nota de crédito do país, de “BBB-” para “BB+”, suspendendo o chamado grau de investimento, espécie de selo de bom pagador conferido a uma nação. O cenário econômico levou a entidade a colocar o rating em perspectiva negativa, o que aponta a possibilidade de novo rebaixamento nos próximos meses.

A perda de grau de investimento, decisão sobre a qual pesou a proposta orçamentária do Planalto para 2016, pegou de surpresa governo e analistas. Segundo um ministro ouvido pelo GLOBO, a avaliação é que o rebaixamento neste momento deve complicar o quadro político e elevar o tom das críticas ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Em seu relatório, a S&P afirma que “o perfil de crédito do Brasil enfraqueceu-se ainda mais desde 28 de julho”, data em que a perspectiva do país foi revisada para negativa. Segundo o comunicado, na ocasião, a agência sinalizou os riscos para a execução das medidas corretivas em curso, principalmente decorrente da dinâmica no Congresso e dos efeitos colaterais das investigações de corrupção na Petrobras.

“Percebemos agora menos convicção dentro do Ministério da presidente sobre a política fiscal”, disse a agência.

A S&P cita ainda que há uma possibilidade de um em três “de um rebaixamento adicional devido a uma maior deterioração da posição fiscal do Brasil, (…) incluindo uma falta de coesão dentro do Ministério da presidente”.

A possibilidade de perder a classificação de bom pagador era cogitada pelo governo, mas a expectativa era que a S&P esperaria até o primeiro trimestre do ano que vem para tomar uma decisão, seguindo o cronograma normal de reavaliações.

— Mesmo no ano que vem, a gente esperava um indicativo de que poderia mexer na nota, não um rebaixamento assim logo de cara — lamentou uma alta fonte palaciana.

Assim que a notícia foi divulgada, os telefones começaram a tocar nos gabinetes do Planalto. Os ministros precisavam acertar o discurso para amenizar o clima, não apenas para a população como para o mercado financeiro e os investidores.

— Estamos precisando de um anúncio forte. Algum plano fiscal forte — cogitou um assessor da presidente Dilma Rousseff.

— Além de perder investimentos, vai esquentar o clima no Congresso — previu uma fonte.

O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, disse que o governo foi pego de surpresa com a decisão. Já Levy comentou, por meio de nota, que, diante da reavaliação da nota brasileira, o governo reafirma seu compromisso com a consolidação fiscal.

A proposta orçamentária do governo teve grande peso na decisão. A agência destacou que o texto do Planalto alterou a meta fiscal, para uma projeção de déficit, menos de seis semanas após esta ter sido reduzida. Isso, afirmou a S&P, significaria três anos consecutivos de déficit primário e de aumento da dívida líquida, caso não sejam tomadas medidas em relação às despesas e receitas. A agência destacou que o orçamento proposto é baseado em um déficit primário de 0,3% do PIB, em vez da meta de superávit anteriormente revista.

A S&P disse ainda esperar uma contração do PIB real mais profunda e longa. “Nossas projeções estimam uma contração de cerca de 2,5% este ano, seguido de outra contração de 0,5% em 2016, antes de retornar a um crescimento modesto em 2017.”

‘A AGÊNCIA PERDEU A PACIÊNCIA COM O BRASIL’

Para o economista-chefe do BES Investimentos, Jankiel Santos, a decisão da S&P surpreendeu não pelo rebaixamento, mas pelo fato de ter sido feita pouco menos de um mês após a última revisão.

— A decisão foi surpreendente porque, na alteração da perspectiva, a S&P deu declarações de tranquilidade em relação ao Brasil. Aparentemente, a agência perdeu a paciência com o Brasil — disse.

Já Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central (BC) e professor do Centro de Estudos Internacionais da FGV, acredita que o corte na nota de crédito era uma “tragédia anunciada”. A revisão para baixo da meta fiscal do país e a previsão de déficit para os próximos anos, avalia, aumentaram o risco de rebaixamento. Ele lembra que, após a crise de 2008, as agências de risco ficaram mais atentas a um indicador-chave sobre a saúde financeira dos países: a relação dívida bruta/PIB.

— Nossos indicadores se deterioraram muito rápido. E as projeções de crescimento constantemente puxadas para baixo mostram uma economia desequilibrada — disse Langoni. — O problema principal é que o custo de capital vai aumentar em um momento em que precisamos alavancar investimentos para sair da recessão.

O outro lado da moeda, ressaltou, é que a decisão da S&P eleva a pressão para que os atuais desequilíbrios sejam corrigidos:

— A tendência é que as outras agências acompanhem. Sanear contas públicas é um processo muito demorado. É hora de o governo apresentar um pacote de reformas fundamentais para o Brasil, nas áreas tributária, da Previdência e do mercado de trabalho, além de desenhar uma nova política comercial para o país.

Para o economista Marcel Caparoz, da RC Consultores, a perda do grau de investimento é muito ruim, pois significa que o risco de o país dar calote e não pagar suas dívidas é muito grande. Outro agravante é que abre um precedente para as outras duas agências (Fitch e Moody’s) também rebaixarem a nota do Brasil, o que levaria a uma fuga de investidores, já que muitos fundos americanos só podem aplicar seus recursos em países que tenham, no mínimo, grau de investimento em duas agências. Atualmente, a nota do Brasil na Moody’s é “Baa3” (estável), a um degrau de perder o grau de investimento, e, na Fitch, “BBB” (negativo), a dois passos da zona de maus pagadores.

O economista destacou contudo, que o lado positivo da notícia é que vai acelerar a discussão e o diálogo do governo em busca de medidas eficazes para o corte de gastos e ajuste fiscal:

— Essa decisão (da S&P) é muito forte. Todos os economistas já estavam informando que o país estava evoluindo para um processo de insolvência. Mas o rebaixamento vai colocar pressão no governo para o diálogo, em busca de uma solução para cortar gastos e conseguir o ajuste fiscal.

VOLATILIDADE A CURTO PRAZO

A consequência de curto prazo deve ser o aumento da volatilidade, com uma maior pressão sobre o câmbio, devido à possibilidade de fuga de investimentos caso Moody’s ou Fitch também rebaixem o Brasil.

Benito Berber, estrategista para a América Latina do Nomura Securities, em Nova York, acredita que a decisão da S&P fará com que os mercados tenham uma reação bastante negativa hoje. Dependendo do nível de pressão sobre o câmbio, ele espera que o BC volte a intervir de forma mais agressiva para conter a escalada do dólar.

— Obviamente os mercados vão reagir de uma forma muito ruim, com muita pressão sobre a moeda. O Banco Central pode ter que fazer mais ofertas de swap cambial (que equivale a uma venda de moeda no futuro), leilões de dólar ou outros tipos de intervenção. Vai ser um dia muito difícil para os mercados no Brasil — afirmou.

Na avaliação de Berber, o rebaixamento do Brasil pela S&P foi precipitado, uma vez que ocorreu em um momento em que o governo ainda está discutindo as medidas fiscais. Mas ele acredita que foi uma mensagem, para o governo e o Congresso Nacional, de que é preciso fazer essas alterações.

— É uma questão de política fiscal e credibilidade, então os políticos precisam mostrar um determinado comportamento e melhorar a política fiscal. Mas, para mim, parece que a decisão da S&P foi um pouco prematura. Não acredito que Fitch e Moody’s terão a mesma reação — disse.

Para o ex-presidente da Associação Brasileira dos Analistas de Mercado de Capitais (Apmec) Francisco Petros, o rebaixamento do Brasil pela S&P foi uma medida previsível, mas não esperada para agora. Segundo ele, o que pode ter ocasionado o rabaixamento foi o caminho adotado pela equipe econômica: pouco claro, com políticas fiscais incoerentes, que não pregam o corte de despesas e concede benefícios fiscais a alguns setores.

— É um verdadeiro desastre. Três quartos dos recursos do mercado internacional são destinados aos países com grau de investimento. O Brasil vai perder muitos recursos. Mas a agência fez uma avaliação correta.

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Publicado em 10/09/2015, em Política e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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