Petrobras: ações dão prejuízo a investidores

Investidores que têm em suas carteiras ações da Petrobras estão assustados com a perda de valor destes papéis, que neste ano já chega a 21,5%.

Falta de governança prejudica acionista

Fonte: O Globo

Ações da Petrobras dão prejuízo a investidores

Lavagem de dinheiro faz ações da Petrobras terem considerável queda e há grandes chances para continuar caindo. Divulgação

Perda do valor das ações da Petrobras assusta investidores; papel já caiu 21% no ano

Analistas recomendam manter a empresa na carteira de investimentos e não realizar prejuízo

Investidores que têm em suas carteiras ações da Petrobras estão assustados com a perda de valor destes papéis, que neste ano já chega a 21,5%. Corretoras ouvidas pelo GLOBO contam que triplicaram os telefonemas de pequenos investidores em dúvida sobre manter ou vender as ações, depois que os desvios de recursos da estatal tornaram-se públicos. Analistas recomendam que aqueles que já tenham dinheiro aplicado em Petrobras, mantenham a ação em seu portfólio. Para quem quer aproveitar o preço baixo – a ação está sendo negociada a pouco mais de R$ 12, menor preço em nove meses – a recomendação é de cautela, já que o valor pode cair ainda mais. Alguns, apostam que a ação poderá bater em R$ 10, em breve.

– O clima é de insatisfação total entre os investidores. Para quem está pensando no longo prazo, a recomendação é manter o papel em carteira. O negócio de petróleo é promissor e lucrativo no mundo inteiro e a Petrobras está atravessando uma má fase por problemas de gestão. No curto prazo, os papéis podem cair ainda mais, e chegar a até R$ 10, com as incertezas sobre como o balanço do terceiro trimestre será afetado com as perdas após as investigações de corrupção – diz Maurício Pedrosa, sócio da Queluz Asset Management.

Um estratégia recomendada pelo sócio da Queluz para quem quer aproveitar o preço baixo da ação é comprar parceladamente. Para ele, a cada dia de ‘mal-estar’ da Petrobras, com mais notícias negativas, o papel tende a se desvalorizar ainda mais. Mas mesmo esse investidor deve ter um horizonte de longo prazo para resgatar o investimento.

O sócio da Queluz observa que a não publicação do balanço no prazo limite determinado para Comissão de Valores Mobiliários (CVM) é um fato muito grave. Ele lembra que isso deve desestimular a participação de investidores estrangeiros quando a Petrobras voltar a emitir títulos no exterior.

– Se a empresa virar o ano sem apresentar seus números, a situação tende a se complicar. Investidores institucionais, como fundos de pensão ou estrangeiros, não poderão ter em carteira uma empresa que não tem números auditados. A tendência é que as agências de rating também rebaixem a avaliação da empresa – afirma Pedrosa.

O raciocínio de não vender agora as ações da Petrobras e realizar o prejuízo vale inclusive para aqueles que aplicaram os recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) em fundos de ações Petrobras, afirma Paulo Bittencourt, diretor técnico da Apogeo Investimento, uma empresa do grupo Vinci Partners.

– Quem transferiu os recursos do FGTS está abraçado nestes papéis e é melhor ficar para não realizar o prejuízo. Eu não retornaria para o FGTS, a menos que estivéssemos falando de uma empresa pre-operacional, o que não é o caso. A Petrobras é uma grande empresa, e o petróleo é um negócio lucrativo. O problema é de gestão. Em algum momento, ela vai voltar à normalidade – afirma Bittencourt.

Ele lembra que, embora não seja possível pagar dividendos enquanto o balanço da empresa não for divulgado, isso não deve ocorrer no futuro, quando as auditorias independentes assinarem a prestação de contas da empresa.

– Os dividendos vão continuar sendo pagos no futuro. O mais importante agora é que a auditoria independente revise os números e assine os balanços para que a companhia continue tendo acesso ao mercado internacional – diz Bittencourt.

PREÇO PERTO DA MÍNIMA HISTÓRICA

E além das denuncias de corrupção e do adiamento do balanço, a empresa encontra-se em um movimento adverso, com a mudança do cenário econômico. Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença Corretora, lembra que o plano de investimentos da companhia considera um dólar a R$ 1,90 e um barril de petróleo cotado a US$ 100. A situação mudou e a cotação do dólar está em torno de R$ 2,60 e o do petróleo a US$ 80.

– Na parte financeira é que mora o perigo para a Petrobras. Se fizer ajustes, pode ter que reconhecer algum prejuízo. O movimento de venda ocorre em cima de um cenário que está a cada dia pior. Está ruim por causa dos escândalos e na parte financeira, com a alta do dólar e queda do preço do petróleo – explicou.

É esse cenário que justifica a queda de 21,5% das ações da Petrobras no ano. No caso das ordinárias, o recuo é de 21,4%. Nos dois casos, a cotação está perto da mínima histórica – considerando o período desde a mega capitalização da empresa, em 2010 – , que é de R$ 11,61 para as ordinárias e R$ 11,81 nas preferenciais, valor registrado em 17 de março.

No entanto, embora haja o risco de revisão de balanços anteriores e mudanças nos planos da empresa, Elad Victor Revi, analista da Spinelli, afirma que alguns investidores veem isso como uma oportunidade.

– O mercado está muito receoso em função da possível surpresa que pode acontecer. Está todo mundo no escuro e não se sabe como isso pode afetar os dados contábeis. Alguns investidores estão preocupados, mas há os que veem que o preço está barato em relação à média histórica do papel – afirmou.

O diretor de uma corretora estrangeira contou que o clima que predomina é de incerteza e que no curto prazo isso deve continuar, o que dificulta a tomada de decisão.

– Obviamente, contando que a empresa paga um bom dividendo, o nível de preço pode estar bom, ser atrativo. Mas a situação é grave. Não vejo sinal de euforia. Os investidores estão desconfortáveis. Há uma desconfiança com a diretoria da empresa – explicou.

DÌVIDA CHEGA A R$ 307,7 BILHÕES

Desde 2009, a Petrobras não tem tido dificuldades em colocar papéis no mercado internacional e vem aumentando o tamanho de suas emissões em dólares ano após ano, elevando os custos de financiamento. Mas enquanto não publicar o balanço, fica impedida de lançar novos papéis no exterior, segundo o advogado Pierre Moreau, do escritório Moreau Advogados, que atua na área empresarial e de mercado de capitais.

– A empresa não está cumprindo a regra do mercado de capitais que prevê a publicação de balanços para as companhias abertas. Por isso, não pode acessar o mercado internacional com emissões primárias – diz o advogado.

Ele diz que no mercado secundário, as negociações continuam normalmente, já que trata-se de dívida emitida.

Para Moreau, a publicação do balanço da Petrobras deve acontecer em breve, já que trata-se de uma grande empresa.

Em maio do ano passado, a Petrobras realizou a maior captação de bônus em dólares por uma companhia da América Latina, ao vender US$ 11 bilhões nos mercados internacionais. Foram seis tranches com prazos entre três e 30 anos, e a demanda naquela ocasião superou os US$ 50 bilhões de dólares. Segundo dados da consultoria Economática, a dívida da empresa atingiu R$ 307,7 bilhões no segundo trimestre deste ano. É o segundo maior nível de endividamento da história da companhia. No primeiro trimestre de 2014, a dívida havia chegado a R$ 308,1 bilhões, o maior patamar histórico.

Em outubro passado, a agência de classificação de risco Moody’s rebaixou o rating global em moeda estrangeira e local da Petrobras de Baa1 para Baa2, e manteve a perspectiva negativa. Segundo a agência, o rebaixamento refletiu o alto endividamento da estatal e a visão de que ele vai diminuir significativamente apenas depois de 2016.

Na semana passada, a diretora geral para a América Latina da agência de classificação de risco, Standard & Poor’s, Regina Nunes, afirmou que por enquanto o rating da empresa permanece em BBB-, o mesmo rating soberano do Brasil. Mas a agência estará acompanhando como será a reação do mercado internacional à atual crise da empresa. Um rebaixamento da nota da Petrobras influi negativamente no rating do país.

MINORITÁRIOS PODEM PEDIR INVESTIGAÇÃO À CVM

O advogado Pierre Moreau afirma que os acionistas minoritários que se sentirem prejudicados pela perda de valor das ações da Petrobras podem requerer à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o xerife do mercado de capitais, que investigue as responsabilidades pelos prejuízos. O advogado lembra que os detentores de títulos da empresa no exterior ou American Depositray Receipts (ADRs), recibos emitidos na Bolsa de Nova York que equivalem a ações, também podem reclamar à Securities and Exchange Commission (SEC), órgão equivalente à CVM.

– Os detentores de títulos podem inclusive pedir antecipação do vencimento desses papéis, diante do fato de a empresa não ter divulgado seu balanço. Uma alternativa, seria a própria Petrobras recomprar esses títulos, garantindo a liquidez. Já os minoritários que investiram seu FGTS em fundos Petrobras, e estão se sentindo lesados, podem requerer à CVM que apure as responsabilidades pela perda de valor da empresa – afirma Moreau.

Ele observa que existe a possibilidade de os minoritários entrarem com uma ação pedindo indenização pelos prejuízos diretamente à Justiça. Mas lembra que, nesse caso, é preciso produzir provas, o que é mais complicado.

– Uma investigação sobre a má gestão da empresa feita pela CVM ajudaria mais aos minoritários do que entrar diretamente na Justiça – afirma o advogado.

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Publicado em 19/11/2014, em Economia, Governo do PT, Petrobras, Política e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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