Petrobras: problema de fluxo de caixa

Petrobras corre contra o tempo para tentar publicar seus dados financeiros auditados e, com isso, voltar a ter acesso ao mercado financeiro.

Se empresas não resolver problema de divulgação do balanço, ficará sem poder captar recursos no mercado

Fonte: O Globo

Petrobras poderá ter problema de fluxo de caixa

Diretor financeiro da Petrobras, Almir Barbassa, afirmou que a Petrobras não tem necessidade de fazer dívidas. Foto: Alexandre Cassiano / alexandre cassiano.

Petrobras tem seis meses de caixa sem precisar captar recursos

Estatal corre para prestar contas e fará ajuste no valor de seus ativos

Os escândalos de corrupção levarão a Petrobras a fazer um ajuste contábil no valor dos seus ativos, informou nesta segunda-feira a companhia. Até que haja esse acerto de contas, a empresa não poderá divulgar seu balanço financeiro. Sem isso e, principalmente, sem o aval da auditoria independente PricewaterhouseCoopers (PWC) a seu balanço, a empresa não conseguirá fazer novas captações de recursos no mercado financeiro.

Nessa segunda-feira, o diretor financeiro da empresa, Almir Barbassa, disse, em conferência com analistas do mercado, que a estatal tem folga de caixa de seis meses para operar sem necessidade de captar novos recursos. A presidente da estatal, Maria das Graças Foster, anunciou ainda a proposta de criação de uma diretoria de Governança.

– Nós temos o reconhecimento ao longo de décadas da nossa performance técnica e operacional. Nós precisamos ter o mesmo respeito e reconhecimento pela nossa governança. Com a criação da diretoria, entendemos que nós mitigaremos riscos, assegurando o cumprimento de leis e regulamentos internos e externos – destacou Graça. – Todo mundo aqui tem mais de 30 anos na Petrobras. Isso para nós é muito doloroso e muito penoso. Mas, ao mesmo tempo, nos estimula fortemente a buscar todos os instrumentos para melhorar nossa governança.

Ao apresentar os resultados operacionais da estatal, Barbassa afirmou nessa segunda-feira que a folga de caixa da companhia é suficiente para um período de cerca de seis meses, “sem necessidade de acessar nenhum mercado de dívidas”. Nos primeiros seis meses deste ano, a empresa gerou caixa operacional de R$ 30,5 bilhões e investiu R$ 41,499 bilhões. Até junho, a estatal captou no mercado R$ 46,295 bilhões, um aumento de R$ 13,8 bilhões em relação ao ano anterior.

– Quanto à disponibilidade de recursos para a empresa continuar operando, nós temos volumes muito elevados de caixa. E é uma medida positiva, porque nos dá um período bastante longo. Eu diria superior a seis meses de operação sem necessidade de acessar nenhum mercado de dívidas. Poderia ser até superior a isso – disse ele.

O executivo de um banco estrangeiro, que prefere não se identificar, explica que, para fazer emissões no exterior, necessárias para a empresa fazer frente a seu bilionário plano de investimentos, a Petrobras terá que publicar antes o seu balanço do terceiro trimestre. Sem isso, não haverá demanda pelos papéis.

Na manhã desta segunda-feira, Graça e seus diretores responderam a quase duas horas perguntas de analistas, preocupados com o impacto das denúncias de corrupção no balanço da empresa, assim como com os riscos financeiros da não publicação do balanço. Pela primeira vez em anos, participaram da coletiva à imprensa José Eduardo Dutra, atual diretor Corporativo e de Serviços da estatal – e ex-presidente da Petrobras e do PT – e José Antonio de Figueiredo, diretor de Engenharia.

CORRIDA CONTRA O TEMPO

A companhia corre contra o tempo para tentar publicar seus dados financeiros auditados e, com isso, voltar a ter acesso ao mercado financeiro. Quando perguntado por um analista sobre os impactos de não publicar o balanço até o fim deste ano, Barbassa esclareceu que só uma pequena parte da dívida atual necessita da publicação dos resultados, mesmo que não auditadas, até 30 de dezembro.

Caso isso não ocorra, poderia haver um cross-acceleration, ou antecipação da data de vencimento de outros títulos de dívida da empresa o que, na prática, aumenta a dívida. A empresa ainda trabalha com a hipótese de levantar “dívida bilateral” – quando toma empréstimo diretamente com um banco.

– A dívida que temos de pequena monta, que teria essa demanda para o final do ano, poderia causar esse cross-acceleration em outras dívidas. Mas, como estamos prevendo a publicação (dos resultados) com bastante antecedência, ela será resolvida e não é esperado que ocorra o descumprimento dessa obrigação, que gere outros efeitos correlatos. Caso se estenda o período para a demonstração contábil, o bilateral é, sim, uma possibilidade – explicou Barbassa.

Barbassa explicou que para publicar o balanço a companhia está fazendo um levantamento das perdas com base nos depoimentos do ex-diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, e do doleiro Alberto Youssef na delação premiada no âmbito da Operação Lava-Jato, da Polícia Federal (PF) no dia 8 de outubro. Segundo Barbassa, os valores relativos ao pagamento de propina serão descontados do valor dos ativos da companhia.

– Se houve pagamento acima do que é justo, esse valor deve ser retirado do que foi investido e levado para o resultado. É retirar dele (do valor do ativo) qualquer valor relativo à propina. Hoje, o foco maior é no ajuste devido a fatores de corrupção. Em fins de janeiro, deveremos ter o relatório revisado do terceiro trimestre. Precisamos da carta de conforto (a aprovação da consultoria PwC) dos auditores para fazer qualquer emissão – disse Barbassa.

O executivo fez questão de destacar que as baixas nos ativos serão contabilizadas com base nas informações que a estatal obteve, apesar das investigações em curso:

– Nós temos o imponderável sempre que é a investigação, mas, com os dados que temos nos dias de hoje, previmos sim um prazo que é realizável a vista dessas informações, entretanto nosso compromisso é divulgar o balanço que reflita tudo que sabemos no momento da divulgação e se ocorrer algum elemento, algum fato novo semelhante a esse divulgado em 8 de outubro que provoque outros ajustamentos nós vamos incorporá-los e se necessário vamos ajustar o prazo para fazer essa incorporação. O importante é que não vamos dar uma informação pela metade. No momento, a informação será a mais completa possível para a companhia.

Além de Barbassa, Graça destacou que serão revistos no balanço apenas os projetos citados no âmbito da Operação Lava-Jato – como a construção da refinaria de Abreu e Lima (PE) e do Comperj (RJ) Não estão incluídos os questionamentos feitos pelo Tribunal de Contas da União relativos a outros projetos polêmicos como a compra da refinaria de Pasadena, no Texas, e o suborno feito pela holandesa SBM. Graça explicou que a companhia teve acesso ao teor das declarações com base no chamado “provas emprestadas”:

– As provas emprestadas foram encaminhadas à Petrobras pela PF para que as baixas (no balanço) sejam feitas ano a ano. Só quero deixar claro que foi o depoimento de 8 de outubro, no momento que trouxe as tais provas emprestadas. Foi a partir dali que nós entendemos que não estaríamos prontos para elaborar de forma fidedigna as nossas demonstrações contábeis. Esse é o ponto. Não foi a Operação Lava-Jato em si, pois fomos informados da existência dela no dia 20 de março. Existe o imponderável que são as investigações pela polícia e podem acontecer fatos novos ou mesmo pelos escritórios independentes que nós contratamos. Então, existe algo que nós não temos o controle perfeito. Mas temos um calendário.

Segundo Adriano Rodrigues, professor de Contabilidade e Finanças da UFRJ (Coppead e FACC), o reconhecimento de perdas é possível dentro da técnica contábil em função de um ativo aparecer com valor superior ao seu valor recuperável.

– Se há evidência que a obra foi de R$ 40 milhões em vez de R$ 50 milhões, posso reconhecer a perda, independentemente de o fato gerador ser corrupção – afirma Rodrigues, frisando nunca ter visto reconhecimento semelhante.

Pedro Galdi, analista-chefe da SLW Corretora, diz que há muita incerteza:

– Ninguém sabe exatamente a proporção de tudo isso. A baixa contábil será de mais ou menos que R$ 10 bilhões? Não se tem ideia.

O professor Edmar de Almeida, do Grupo de Economia da UFRJ, afirma que, sem acesso ao mercado externo, a situação pode ficar mais complexa:

– A empresa pode contrair dívida de forma bilateral, ou seja, em vez de ir ao mercado, contrata com apenas uma entidade, um banco do governo ou uma empresa. O ruim é que nesses casos há mais pedidos de garantias e, em geral, juros maiores.

Graça Foster disse que o foco é trabalhar para publicar o quanto antes o balanço para evitar o “aceleramento da dívida”. Ao fim de junho, a dívida líquida da estatal somava R$ 241,349 bilhões.

– Estamos perseguindo nos grupo internos o cumprimento dos nossos planos para ter esse balanço auditado. Evidente que tem toda a parte investigatória. Fatos novos podem ocorrer. Aquilo que cabe a nós, não consideramos não atender datas e não consideramos ter aceleração de dívida por conta do não fechamento do balanço auditado – disse Graça.

DIFICULDADE DE CURTO PRAZO

Para David Zylbersztajn, ex-presidente da Agência Nacional do Petróleo, o fato de a Petrobras informar que conta com caixa suficiente para operações nos próximos seis meses sem precisar recorrer ao mercado de capitais trará uma dificuldade de curto prazo, mas que é passível de solução sem oferecer riscos:

– A empresa continua operacional. Nesse momento, não corre risco. Tecnicamente, ela não mudou, continua produzindo o produto para o qual é vocacionada e é uma empresa qualificada. Foi um equívoco politizar a Petrobras.

Além disso, os trabalhos das consultorias já pesam no orçamento da estatal. Segundo Graça, o escritório brasileiro de investigação Trench, Rossi e Watanabe Advogados recebeu R$ 6 milhões, além dos US$ 5 milhões pagos à americana Gibson, Dunn & Crutcher LLP. Em ambos os casos, o contrato tem um período de um ano.

E em meio ao imbróglio financeiro, Graça ressaltou que haverá mais reajustes dos combustíveis, mas em patamares reduzidos:

– Tivemos um pequeno reajuste na última semana, como forma de recompor o caixa ao longo do próximo ano. Trabalhamos com reajustes menores e com frequência maior para que possamos recompor o nosso caixa.

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Publicado em 18/11/2014, em Corrupção, Fraude, Gestão, Gestão Deficiente, Gestão do PT, Governo, Governo do PT, Petrobras, Política e marcado como , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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