Crise: Governo Dilma quebra usinas de etanol

Etanol vive sua pior crise em 30 anos, devido à política de controle de preços da gasolina pelo governo e ao alto endividamento do setor.

Em quatro anos, 26 usinas foram fechadas em São Paulo

Fonte:  O Globo

Sertãozinho transformou-se num dos mais importantes polos de tecnologia e produção de álcool e açúcar do país. Foto: Divulgação

Sertãozinho transformou-se num dos mais importantes polos de tecnologia e produção de álcool e açúcar do país. Foto: Divulgação

Produção de etanol sofre a pior crise em 30 anos

Sertãozinho, a 356 quilômetros de São Paulo, cresceu a um ritmo chinês de 10% ao ano de 2003 a 2008. Puxado pelo boom do etanol, com a explosão da frota de carros flex, o município de 120 mil habitantes atraiu investidores, inclusive internacionais, interessados em produzir o combustível limpo. Mas hoje, o etanol — tecnologia brasileira desenvolvida com sucesso, e muitos subsídios, nos anos 1970, após o choque do petróleo — vive sua pior crise em 30 anos dizem os usineiros, em parte devido à política de controle de preços da gasolina pelo governo. O setor sofre ainda com endividamento de produtores e usineiros e condições climáticas adversas. Com isso, o etanol, que em seu processo de produção reduz em 89% as emissões de CO2 quando comparado à gasolina, vai perdendo espaço para o combustível mais poluente.

Em Sertãozinho, das sete usinas, duas fecharam e uma está em recuperação judicial. Sem encomendas das usinas, as 500 indústrias metalúrgicas já extinguiram 10 mil postos de trabalho e viram seu faturamento cair 50%.

— Caímos do 4º para o 54º lugar no índice Firjan de desenvolvimento municipal, que mede a qualidade de emprego, renda, saúde e educação entre 5 mil municípios. A cidade ainda é muito dependente da cana — diz Carlos Roberto Liboni, secretário de Indústria e Comércio de Sertãozinho.

EM QUATRO ANOS, 26 USINAS FECHADAS EM SP

Sertãozinho transformou-se num dos mais importantes polos de tecnologia e produção de álcool e açúcar do país. Calcula-se que São Paulo responda por 60% da cana plantada no Brasil. Mas, nos últimos quatro anos, 26 usinas fecharam no estado. Segundo produtores e usineiros, é a pior crise em 30 anos e os custos superam o preço do etanol.

— É crise que não passa. Investimento em tecnologia parou aqui — diz Antônio Eduardo Tonielo Filho, presidente do Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis.

Para a consultoria MBF Agribusiness, o endividamento do setor é histórico, mas houve uma sobrecarga em 2006, quando muitos apostaram na produção do etanol como substituto do petróleo. Esse movimento levou ao aumento dos custos de produção e baixou o preço final do produto. O problema se intensificou a partir de 2008, na crise internacional, com menos crédito disponível. O diretor da MBF, Marcos Françóia, lembra que os empresários têm parcela de culpa pela situação, acumulando anos de gestão com resultados ruins.

Dono da destilaria Pignata, que fechou há pouco mais de três anos, Hélio Pignata, de 82 anos, diz que havia incentivos do governo federal para a produção de etanol. Por isso, migrou da cachaça para o álcool combustível. Pequena para os padrões do setor, a Pignata chegou a produzir 10 milhões de litros por safra, mas se viu enrolada em dívidas, segundo o usineiro, de R$ 50 milhões. Entrou em processo de recuperação judicial e foi assumida pelo empresário Ricardo Mansur, ex-dono do Mappin e da Mesbla. Mas ele acabou devolvendo-a ao descobrir que a dívida chegava a quase R$ 100 milhões.

— O preço do etanol não compensava. Quanto mais eu moía cana, mais meu prejuízo aumentava. Por isso, decidi fechar — diz Pignata.

A usina Albertina interrompeu a produção em Sertãozinho em 2012, após quatro anos de recuperação judicial. Na época, repassou à multinacional francesa Louis Dreyfus o direito de assumir 8 mil hectares em contratos de arrendamento de cana. Deixou um rastro de milhares de demitidos, boa parte moradores do distrito de Cruz das Missões.

Vanderlei Mariano dos Santos, de 55 anos, trabalhou por 25 anos na Albertina como destilador. Casado e pai de três filhos, diz que recebeu apenas o FGTS, mas as multas contratuais pela demissão não foram pagas e está brigando na Justiça. Hoje, é motorista de caminhão e ganha menos da metade dos R$ 2,3 mil que recebia na usina.

Entre os cerca de 2 mil pequenos fornecedores de cana da região para as demais usinas de Sertãozinho, o horizonte também não é positivo. Este ano, a seca reduziu a produtividade de até 90 toneladas por hectare, a média do estado, para 71 toneladas por hectare. Com menos cana para moagem, algumas usinas, como a São Francisco, encerraram a safra em outubro em vez de novembro. Para a próxima, a previsão é de 40% de queda. Muitos estão vendendo ou arrendando parte de suas terras para grandes grupos internacionais como saída para não se endividarem mais, diz Manoel Ortolan, diretor da Canaoeste, que representa esses produtores:

— Esperamos que o governo anuncie o aumento de 25% para 27,5% da adição de etanol na gasolina em 2015. Seria uma alta de 1,2 bilhão de litros.

METALÚRGICA AGORA FORNECE PARA A PETROBRAS

O governo não confirma o aumento da mistura, mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que a gasolina pode subir ainda este ano, o que na prática beneficia o consumo do etanol.

A Caldema, uma das maiores produtoras de caldeiras para usinas da cidade, produzia oito por ano até 2008. Suas vendas chegavam a R$ 320 milhões. Mas a empresa dispensou cem funcionários. E, para não ampliar as demissões, treinou os 450 restantes, virou fornecedora da Petrobras e construiu a primeira caldeira que gera energia elétrica a partir da queima de lixo, para Barueri (SP).

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Publicado em 04/11/2014, em Economia, Gestão, Gestão Deficiente, Gestão do PT, Governo do PT, Política e marcado como , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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